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Maconha é terapêutica ou medicinal?

Afinal, é possível separar os efeitos da planta de acordo com seus usos? Venha filosofar com a gente e entender melhor essa classificação

por Girls in Green Atualizado em 20 Maio 2022, 12h27 - Publicado em 20 Maio 2022 02h59
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(Arte/Redação)

medicina não é coisa nova: acredita-se que tenha surgido na Grécia, com Hipócrates, há mais de dois mil anos. Mais ou menos no mesmo período, já se desenvolvia a medicina tradicional chinesa – usada por muitos até hoje, ela conta com uma extensa coleção de saberes. E antes mesmo disso, o Ayurveda – do sânscrito, “ciência da vida” – já era usado pelos hindus como uma filosofia médica que propõe o equilíbrio entre corpo, mente e alma.

Entretanto, atualmente, quem fala mais alto é a medicina ocidental. Bem menos filosófica e mais “pragmática”, ela segue a ciência e métodos laboratoriais, por vezes dando mais ênfase a sintomas físicos do que ao todo propriamente dito.

“Tá, mas e por que estamos falando sobre isso?”

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Porque, para nós, é essencial entender essa diferenciação quando pensamos em abordar a temática da maconha medicinal ou terapêutica.

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Afinal, por que a planta leva essas categorizações?

Existe alguma diferença entre a maconha medicinal, terapêutica e a convencional, fumada na rodinha de amigos para bater uma larica e dar risada? A verdade é que a maior diferença está apenas… no nome. Os termos medicinal e terapêutica foram adicionados visando tornar a substância mais palatável para a comunidade médica e pacientes após anos e anos de uma proibição, no mínimo, injusta.

Vamos falar e refletir sobre isso?

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(João Barreto/Ilustração)

A maconha como parte da medicina

A medicina ocidental demorou muito, mas muito tempo para aceitar o que vários povos antigos já sabiam: a cannabis e todas as substâncias presentes nela têm usos e benefícios variados em nosso organismo. Os livros da Ayurveda, por exemplo, mencionam a planta para diversos tratamentos. Documentos como o Dravya Gunas e Susruta-samhita apontam que ela pode ajudar:

– No sistema circulatório;
– Em problemas digestivos e respiratórios;

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– No trato urinário e reprodutor
– Em problemas de pele;
– A tratar insônia;

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– Como afrodisíaca e analgésica.

    Na medicina chinesa, a plantinha também recebia honrarias pelas suas propriedades extensas. Em manuscritos milenares do imperador chinês Shen Neng, de 2737 a.C., o chá da maconha era prescrito para diversas doenças e problemas, como gota, malária e até mesmo déficit cognitivo leve.

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    Mais moderno, um relatório de 1893 feito a pedido da coroa britânica (que, à época, ainda dominava a Índia) destacou as propriedades medicinais da cannabis para aliviar dores, para melhorar o estado físico e mental geral, estimular o apetite e agir contra a fadiga. Há registros de que mesmo a Rainha Elizabeth a usava para se livrar de fortíssimas cólicas menstruais.

    Ou seja: muito do que se sabe hoje através de extensas pesquisas já estava bem aqui, embaixo do nosso nariz o tempo todo. Ah, se o homem branco deixasse a arrogância de lado e desse valor aos saberes ancestrais, certo?

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    (João Barreto/Ilustração)

    Proibição, demonização e tabus

    Não há como negar que o proibicionismo e a Guerra às Drogas foram fatores-chave para todo o atraso científico que vemos em relação à cannabis. Ela não foi proibida apenas nas ruas – mas nos laboratórios, nas universidades e em todo ambiente de pesquisa que servia a descobrir (ou melhor, confirmar) suas propriedades.

    Ao invés disso, o que ganhou força foi a propaganda anti-maconhista, que trouxe alguns dos principais mitos que ouvimos por aí até hoje. E olha só que maluco: diziam que a maconha matava neurônios. Hoje, estudos mostram que isso não apenas é uma grande mentira, mas que ela pode desempenhar um papel importante na neuroplasticidade. Além disso, pode ser incrível para pacientes que sofrem de condições neurodegenerativas, como Alzheimer, Parkinson e Esclerose Múltipla.

    Também se dizia que a maconha deixava seus usuários mais agressivos. Atualmente, sabemos que, em certas dosagens, cepas com altos níveis de canabidiol (CBD) e níveis mais baixos de tetrahidrocanabinol (THC) podem ter efeitos calmantes – que ajudam pacientes com problemas de sono e ansiedade.

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    Tudo isso foi usado como forma de justificar a perseguição a grupos específicos da população. Nos Estados Unidos, por exemplo, a maconha era muito associada a imigrantes mexicanos – vistos por muitos como indesejados. Para imputar uma má reputação a eles, primeiro foi necessário imputar uma má reputação à planta. E colhemos esses frutos até os dias atuais.

    Para se esquivar desse preconceito, então, surge uma necessidade de “embelezar” a maconha de sempre, chamando ela de cannabis medicinal e/ou terapêutica.

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    (João Barreto/Ilustração)

    Existe diferença entre maconha medicinal e maconha normal?

    Não! A planta é a mesma. Os possíveis efeitos e benefícios são os mesmos. O que muda é o nome e o tratamento que ela recebe em cada caso.

    Nos tempos em que vivemos, temos uma visão bastante simplista e o senso comum de que apenas a medicina ocidental cura. A dualidade sintoma/remédio tomou conta das nossas vidas de uma forma tão louca que, às vezes, esquecemos de enxergar pessoas adoecidas como seres inteiros. A visão mais holística, que coloca a saúde como uma gama complexa de fatores, não só físicos, mas mentais e emocionais, foi deixada de lado em favor da alopatia. Afinal, se o sintoma é suprimido, podemos acreditar que somos saudáveis – e assim voltamos a viver normalmente.

    Conceitualmente, as palavras “medicinal” e “terapêutico” se referem à mesma coisa: tudo o que tem potencial de cura pode ser encaixado nesses termos. A diferença está muito mais na credibilidade e abrangência que carregam. Por exemplo:

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    Se algo é medicinal, claramente entendemos que é ligado à medicina – logo, à ciência.

    Se algo é terapêutico, no entanto, pode se referir a muitas outras coisas – afinal, uma terapia nem sempre tem embasamento científico. Além disso, geralmente ela trata de algo muito mais complexo do que o que é físico e palpável.

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    E a verdade é que a gente entende: classificar o conhecimento científico como o único válido faz parte da nossa sociedade, de maneira que até mesmo a palavra “holístico” é vista com preconceito.

    Tudo o que não é embasado cientificamente é tido como charlatanismo. E às vezes é mesmo! Mas também precisamos quebrar essa ideia de que a ciência é algo 100% exato e imutável. Por exemplo, imagina se os cientistas tivessem aceitado o primeiro modelo de átomo como o único válido, onde a gente estaria agora?

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    A maconha entra nesse lugar. E acreditamos que ela pode ser considerada tanto medicinal como terapêutica.

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    (João Barreto/Ilustração)

    O benefício não depende da intenção

    Fazer o uso adulto de uma substância com poderes medicinais ou terapêuticos não retira dela seus possíveis efeitos para a saúde.

    Por exemplo: ninguém fala que vai tomar um chá de camomila terapêutico ou um chá de manjericão medicinal. Tá implícito que esses compostos têm potenciais medicinais e terapêuticos. Separar a cannabis medicinal é uma história para convencer as pessoas, usando a ideia de que a medicina é a única coisa que cura. Por mais que seja importante para as pessoas aceitarem que existe, de fato, um efeito medicinal da maconha, é injusto dizer que ela é só medicinal.

    Independente de você fazer o uso da maconha com o objetivo de tratar alguma condição ou melhorar a qualidade de vida, você vai estar fazendo uso de uma planta terapêutica ou medicinal. Da mesma forma que, às vezes, você toma aquele chazinho de hortelã sem estar doente – mas seu corpo aproveita dos seus benefícios da mesma maneira.

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    (Arte/Redação)

    A verdade é que a maconha pode oferecer efeitos tão variados e complexos que estamos apenas começando a entender. Mas não vale a pena manter algumas de suas utilizações estigmatizadas enquanto se exalta outras! E pensamos que a dicotomia entre o uso adulto e o uso medicinal/terapêutico serve apenas a isso. Mantemos o status de criminalização que impacta apenas uma parte da sociedade, enquanto permitimos que outra parte se beneficie da mesma coisa sobre um pretexto diferente.

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    Sacanagem, né?

    De forma alguma pretendemos invalidar a ciência. É ela que faz a nossa sociedade evoluir e se desenvolver! Mas também precisamos reconhecer a vivência do indivíduo para que o saber científico não se torne impessoal e engessado. Afinal, não é ele que dita o que acontece em você – é você quem dita o que acontece nele. Humanizar a ciência e tirar dela os preconceitos é evitar que aconteça novamente o que já foi feito no passado.

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    Rodrigues Dória é um exemplo. Mas essa história a gente conta em outro artigo!

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